UM MANTO UNIVERSAL
Cristina Azevedo Tavares
Por circunstâncias várias e que agora não vêm ao caso, escrevi sobre a pintura de Luís Geraldes já há muito tempo em 1992, quando este mostrava as suas obras numa galeria do Chiado. Desconhecia por completo quem era, mas a sua obra de forte colorido e com alguma inclinação pela expressão primitiva - que entretanto pude identificar com alguma arte africana e aborígene, e reconfirmar pelas passagens do autor por Angola para onde foi viver com quatro anos e donde regressou a Portugal em 1975 e Austrália, país onde vive e trabalha desde 1985, chamou-me particularmente atenção.
Na altura surgiu-me como uma obra diferente do que se praticava na Europa, e especificamente entre nós, portugueses, onde a discussão em torno do pós-moder-nismo, as propostas minimalistas e as neo-conceptuais eram as mais pertinentes. A organização das composições plásticas, o sentido feérico da cor, a utilização de elementos simbólicos de inspiração ancestral de diversa proveniência salientavam uma dominante expressiva que tanto se podia radicar nas correntes da arte bruta e nos informalismos mais variados. Ao mesmo tempo percebia-se a necessidade do pintor em desenvolver uma mediação equilibrada entre a construção das pinturas e os desígnios de uma liberdade formal e cromática plenamente conseguida, que ainda se encontrava numa fase de maturação.
Posteriormente Geraldes apresentou-se várias vezes em Portugal em espaços diferentes e mais recentemente realizou uma grande escultura em ferro: metade pássaro e a outra metade figura humana, com uma meia lua em cima da cabeça, intitulada “Gaivota”, símbolo da região algarvia e que se encontra integrada no Museu de Escultura ao Ar Livre, e exposta no Campo de Golfe de Vila Sol.
Se a escultura em termos de representação da figuração se identifica claramente com a pintura, como aliás podemos constatar na presente mostra, sugerindo-nos protagonistas construídos em madeira e pintados que ganham vida, saem dos quadros e corporizam volume, é ainda de salientar também uma outra obra realizada em cerâmica que foi levantada em 2003 na Austrália, e cuja linguagem se desenvolve em plena articulação com a restante.
Trata-se de um grande mural com cerca de 30 metros de comprimento e três metros de altura, colocado em Sydney numa rua do bairro português de Petersham. Este mural cerâmico constituído por cerca de oito mil azulejos levou um ano de trabalho a ser concretizado, e sinteticamente podemos dizer que evoca a história do universo desde o big bang e a aventura da humanidade através da história até aos dias de hoje.
É um pouco dessa memória trabalhada, que Geraldes tem apresentado fragmentariamente nas suas exposições. Fragmentária porque por vezes encarna ciclos, séries, ou desejos de uma representação do espaço, do tempo e da história do universo e da humanidade cruzada pelos diferentes modos de fazer.
Particularmente nesta exposição na Arqué essa articulação até mesmo com o mural de Sydney pode ser explorada nas telas de maiores dimensões intituladas “Transient images, fragility of the divine”, “Bristling energy” e “Man is contained in the universe and the universe is contained in man”. Os nomes reenviam-nos para os temas que Geraldes tem trabalhado e investigado desde sempre como a relação entre o mundo material e o mundo espiritual, entre a ciência e a arte, entre o microcosmos e o macrocosmos, a identificação dos cinco elementos, a divisão da tela em cinco partes, a passagem da energia e o binómio espaço e tempo. Independentemente da identificação de alguns símbolos como o ovo cósmico, a mandala, o D.N.A., o átomo ou a divisão celular, estas obras laboram um imaginário latente, uma espécie de magma que representa o “inconsciente colectivo” que Jung referiu nos seus textos.
Nesses quadros grandes assim como noutros, o pintor acede a mecanismos de produção semi-automática, onde o controle da lógica do quotidiano é enfraquecido, para dar lugar a uma expressão, mais livre e próxima das forças vitais que habitam em nós, e que estranhamente ou não, nos ligam ao restante universo simultaneamente energia e matéria. Colocando as telas sobre a terra e atirando tinta sobre o suporte, um pouco à maneira do processo de dripping utilizado por Pollock, Geraldes imprime ritmo e decifra formas. Será o mero acaso responsável pelo resultado, que já na renascença fazia cuidar Leonardo Da Vinci?
Na realidade é também o fazer do pintor, o trazer à tona aquilo que estava soterrado. Assim as pinturas podem associar águas e montanhas aos nus femininos, ou a animais imaginários, podem restabelecer a respiração entre a terra e o céu e fecundar o ovo cósmico mais uma vez reabilitando uma visão espiritualista e não somente esotérica, como se tem dito acerca da obra de Luís Geraldes.
Muitas das obras que apresentam figuras deslocam-se no sentido da representação da máscara como em “At the edge” ou “Floating existence” num magma de azuis e verdes”, ou inspiram leituras mais complexas em “Fragments of life”, ou “Fragments of a dream” onde o pássaro surge, identificado noutras telas como o pássaro do paraíso. A alquimia está igualmente presente “Show me the way”, “In search of a lost legacy”, mas as figuras recortadas com cabeça de pássaro e corpo multicolor como em “Called to prayer” indicam um registo ancestral que passa pelos rituais mágicos, pelas máscaras utilizadas pelos xamanes e que recortam essa memórias dos tempos de Angola agora cruzada nas vivências mais recentes do continente australiano.
Assim Geraldes pôde elaborar uma linguagem modelada no neo-expressionismo articulando o poder sintético e simbólico da representação nas culturas ancestrais, com a economia da B.D. e o poder comunicativo dos grafitos, além de estar próximo de outros artistas actuais, inclusive australianos. Ao longo do tempo houve sempre artistas plásticos que exploraram as vias especulativas da teosofia à escatologia. E de facto existe uma história para ser recordada desde a antiquíssima procura do rectângulo de ouro nas geometrias sagradas, até à representação da perfeição, que o painel “Começar” de Almada Negreiros nos dá também conta.
Do caos à ordem, do inferno aos céus, ou o inverso, a descida abissal e a vertigem do oculto, tudo isto pode ser percebido na pintura de Luís Geraldes, mas esta permanecerá como um manto de magma donde tudo provém e onde tudo retorna, dos laranjas e vermelhos tórridos que não se apagam jamais, e que vibram com os verdes das águas e o azul profundo do infinito.
Lisboa Portugal
Cristina Azevedo Tavares
Monday, April 16, 2007
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